Em 5 de novembro de 2015, a barragem de mineração de Fundão (MG), da empresa Samarco (uma joint-venture da Vale e da BHP-Billiton), rompeu-se, causando um desastre sem precedentes e a contaminação do Rio Doce e de sua bacia hidrográfica. Proponho descrever os processos pós-desastre (compensação e reparação) implementados nos territórios afetados pelas empresas responsáveis por meio da « Fundação Renova » e a resistência local a esses processos, conforme observado durante um estudo etnográfico de longo prazo na comunidade de pescadores de pequena escala de Regência Augusta, localizada na foz do Rio Doce (ES). Analisarei a presença da RENOVA no território, por meio das relações que ela estabeleceu com a população local e as tensões que gerou. Mostrarei como essas relações dificultaram a organização da comunidade em uma mobilização coletiva contra as empresas, em uma comunidade que, além disso, é muito heterogênea. Vou me concentrar em três aspectos em particular: (1) o argumento de que a própria empresa é uma vítima do desastre (2) a individualização da indenização, que enfraquece as demandas coletivas (3) a perda de confiança dos moradores nos mecanismos de participação coletiva após experiências decepcionantes no passado. Por fim, mostrarei como, fora de movimentos sociais estabelecidos, a resistência ocorre apesar de tudo, diariamente, por meio de vínculos sutis com o território e com o rio doce, e dos cuidados dispensados a eles. Argumento que a luta envolve a manutenção e a transformação de práticas e histórias locais com e sobre o Rio Doce, às vezes valendo-se da força de heranças ancestrais, tanto indígenas quanto africanas, de uma comunidade que se autoidentifica como cabocla.