Em 2015, o Rio Doce, no Brasil, foi palco de um dos maiores desastres de mineração do mundo. Uma barragem contendo resíduos da mineração de ferro se rompeu, liberando toneladas de lama que poluíram o rio e toda a sua bacia. Além do evento em si, as pessoas que vivem às margens do rio estão se perguntando como poderão continuar a viver em uma área que agora está contaminada com metais pesados. O que aconteceu com o rio para as pessoas que estavam/estão familiarizadas com ele? A partir da perspectiva de uma antropologia do rio Doce, de suas entidades e suas relações - uma antropologia “além do humano” baseada em pesquisa empirica de longo prazo -, apresentarei as maneiras pelas quais esse desastre ecológico transformou o rio. A contaminação ameaça a multiplicidade de relações que a comunidade tradicional de pesca artesanal de Regência (Espírito Santo) tinha com seu rio e força (re)composições sociais e territoriais para continuar a conviver com o rio. Por meio desses processos, o rio se torna outro que ele mesmo « self-different ». Enfatizarei o poder destrutivo da catástrofe e o “silenciamento dos mundos” que ela provoca, ao mesmo tempo em que mostrarei como certas relações resistem a ela, embaralhando as cartas em uma situação em que tudo parece ter sido decidido com antecedência pelas impresas e seus modos de atuação nos territórios atingidos.
Woitchik, J. (2025). Um rio que resiste : as multiplicidades do Rio Doce na sua foz após o desastre ambiental de Mariana. In Collectif d’auteurs (ed.), Anais eletrônicos da XV Reunião de Antropologia do Mercosul de 2025. https://hdl.handle.net/2078.5/266859